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“Tirar alguém da cadeia é fácil, tirar do crime é muito difícil” - (parte IV) - ZeroHora

 

O que o senhor traz de sua experiência de vida para as decisões?

 

Uma coisa que trago é que você tem de olhar o filme da pessoa, reconstituir a vida dela para poder julgá-la. Tem de entender como a pessoa chegou naquele momento para fazer aquele ato (o crime). Não pode julgar a partir do fato simplesmente. Nem sempre se consegue fazer isso. O processo não trata com verdades ou vê uma verdade parcial. Outra coisa é que o sujeito que teve a experiência de sofrimento, de ser discriminado, que foi cotista e que não é recalcado por isso – e eu não sou – , talvez tenha ampliada essa capacidade de ouvir. Ver o filme é a capacidade de ouvir. E isso, na execução da pena, me dá uma facilidade de entender melhor as pessoas.

 

Com “olho no olho” é mais fácil acertar na decisão? Em tribunais superiores, a sentença é baseada em papéis. A chance de errar é maior?

 

É maior. Quando se conversa, vê reações, vê as lágrimas, vê se a pessoa está dizendo a verdade. Juiz tem que ter a chance de errar pelo que viu e não pelo que os outros lhe contaram. Basta se colocar na posição de quem vai ser julgado: você quer ser julgado por quem te ouviu falar ou por um papel? É comum os presos dizerem que são inocentes. Numa conversa frente a frente, a alegação de inocência se esfacela. Pergunto: por que tu estás preso? 157. Você não entendeu. Por que tu estás preso? Roubei um carro. Você não entendeu ainda. Quero saber por que tu estás preso? Ele vai ter que recontar ahistória dele. Assim, tu começas a trabalhar com mais verdades e menos papel. Tirar alguém da cadeia é fácil, tirar do crime é muito difícil.

 

Que circunstâncias mais contribuem para a pessoa se tornar criminosa? Pobreza? Abusos? Falta de mãe e pai? Uso de drogas? Genética?

 

Tem um percentual que reproduz o que sofreu, nos casos de crimes sexuais. A desestrutura familiar, o ambiente de pobreza, a falta de referências, de valores, isso contribui bastante. Mães que não estão preparadas para serem mães, pais ausentes. Minha tia, que considero minha segunda mãe, sempre disse que educação se dá na dentição de leite. Aqui estamos falhando muito. Quando se castiga um filho, dói, mas por trás tem um carinho, um cuidado. Se castigares só por castigar, vai criar monstrinhos, revoltados contra ti e tu vai perdê-los. É mais ou menos o que acontece na execução das penas. Se tu só castigares sem agregar valores, esse sujeito voltará a te desobedecer, vai virar “monstrinho”. Tem de fazer ele entender por que está sendo castigado.

 

De zero a 10, quanto o sistema penitenciário tem o poder de recuperar?

 

Um.

 

Qual alternativa então?

 

Tem de recuperar o filme da pessoa para buscar o que ela tem de bom e trabalhar isso.

 

Como convencer a população de que o criminoso precisa ter tratamento digno?

 

Isso levará gerações. Vamos levar muito tempo para entender que se não castigarmos com valores, nós vamos fazer cada vez mais uma sociedade de ódio, de exclusão, e vamos aumentar esse fosso de violência.


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