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“Tirar alguém da cadeia é fácil, tirar do crime é muito difícil” - (parte III) - ZeroHora

 

Como foi a mudança para Porto Alegre?

 

Meu tio ficava insistindo. Abriu concurso na Justiça Federal em 1986. Eu tinha 18 anos. Fiz 18 numa terça-feira e, na quinta-feira, tirei minha carteira de motorista. Fui aprovado (para agente de segurança) no concurso, mas não tinha vaga. Segui sendo frentista. Em 1987, vim morar com meu tio. Peguei minha moto, uma mochila e vim. Fui morar na Vila Cefer II. Eu e meus dois primos revezávamos as camas. Tinha duas. A cada semana, um dormia no chão. Fui office-boy, trabalhei em imobiliária. Conheci o mar com 19 anos, trabalhando na filial da imobiliária em Capão. O dono da imobiliária tinha um filho parecido comigo, nos chamamos de irmãos até hoje. Como a passagem de ônibus era muito cara, ele fazia a carteirinha de estudante e eu usava. Tinha de pegar quatro ônibus por dia e correr os acessos da Cefer, por causa da uerra que havia com a Vila Ipê.

 

Já tinha guerra naquela época?

 

Era uma guerra terrível só pelo fato de morar de um lado ou do outro. Eu tinha uma pistola calibre 380. Nunca precisei usar. Quando virei juiz, me desfiz.

 

Sua família passava dificuldades?

 

Quando era boy em Porto Alegre, meu pai tinha falido, minha mãe era faxineira, tinha as mãos comidas de Q Boa (água sanitária), e eu ajudava em casa. Comecei a virar o jogo quando o dono da imobiliária (Natan Press) viu que eu tinha potencial. Eu estava mal. O Natan me deixou trabalhar como corretor em Capão. Me antecipou uma verba por semana para eu conhecer os imóveis antes de começar a temporada. Ele me deu uma máquina para fotografar os imóveis. Na imobiliária, éramos 14 corretores. Ao término da temporada, a metade das locações foi eu quem fiz. Assim ganhei meu primeiro dinheiro. Fiz duas coisas: arrematei a casa da mãe que tinha ido a leilão e paguei um curso pré-vestibular.

 

E o concurso, o senhor chegou a ser chamado?

 

Em abril de 1989, com 20 anos, tomei posse como agente de segurança da Justiça Federal. Vinha de um ritmo louco de trabalho, e na Justiça começavam a trabalhar às 11h. Ia cedo para lá. Me deram todos os serviços que ninguém queria fazer, organizar fichário, arrumar depósitos. Fiz e queria mais. Tudo que era de ruim eu já tinha feito. Só restaram os processos. Me deram. Tinha de cuidar, juntar petição, fazer despachos. Já estava cursando Direito na PUC, com crédito educativo.

 

O senhor sabia o que fazer nos processos?

 

Sabia nada. Pegava um processo antigo e olhava o que tinham feito e fazia igual. Por comparação, fui aprendendo como os processos andavam, como eram os despachos. Um dia, li uma decisão e disse: “Olha só, então ser juiz é isso”. Ali eu entendi. E fui ver o que precisava fazer para ser juiz: só concurso. Bastava estudar e estava ao meu alcance. Fiz a conta: tinha 20 anos e, na faculdade, levaria cinco para me formar e mais cinco para me preparar. Com 30 seria juiz. Com 29 anos assumi.


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